foram anos. longos, afinal foram de distância e elucubrações. o caso em si já havia pregado tantas peças nele que era difícil uma surpresa agora. mas claro que ela ia conseguir impressioná-lo mais uma vez. com seu descaso extremo. ela fora embora sem maiores problemas, mas deixara um vazio gigantesco dentro dele. que ele nunca havia conseguido passar essa para trás era notório. nem com os mais próximos ele falava mais disso. há anos. orgulho. sim, ele tinha. e isso sempre foi uma das maiores dores nessa história toda. ela ter feito as malas, saído de casa, ido embora, e nunca mais ter se dirigido a ele, feria demais seu orgulho. eles nunca terem tido um desfecho, ou ela um motivo óbvio, sempre foi um agravante. quantos sonhos, dormidos e acordados. quantos sustos, quanto medo isso deixou nele. que ela não deu a mínima pra isso, ele sabia. mas ele tinha orgulho. acreditava sim que tinha sido eterno enquanto durou. só para manter ela no controle. por anos e anos. claro. pensava e pensava no assunto, mais do que queria, sempre, desde o primeiro dia. e sabia disso. eles nem moravam mais na mesma cidade. mas ele sabia que um dia, em muitos anos provavelmente, eles se encontrariam num lugar qualquer por mero acaso, e então naquele dia ela iria olhar ele do mesmo jeito ou iria se impressionar com o seu sucesso ou iria ser dolorosamente educada ou iria estar com pressa ou iria estar com o marido e os filhos ou iria rir da juventude e mandar um alô pra família. era uma questão de probabilidade. a cada ano que passava, suas histórias divergindo mais e mais, as possibilidades aumentando em progressões que ele sabia estarem absolutamente fora de controle, ele ficava mais cansado. louco. e como todo bom louco, em nível imperceptível. nas esquinas que eles dobraram juntos, nas mesas em que eles tomaram as primeiras e as muitas cervejas juntos, lembrava dela. nos primeiros anos, doía mais lembrar do final, do que não foi, do que poderia ter sido. depois doía mais mesmo era lembrar dela sorrindo, dela abraçando ele, dela dormindo. e não era algo que ele fazia por esporte. ele sabia. sabia que isso era loucura. às vezes em pleno delírio tentava manter o controle e ameaçava a si mesmo com o óbvio, que ela não merecia nem mais um minuto dele, nem mais um pedaço da sua memória. mas imbuído duma nobreza absolutamente mal dirigida se convencia que ela tinha sido uma parte boa da sua vida. e se sentia grande nesses momentos. louco. e foram anos. muitos. e a cada ano o encontro provável cada vez mais perto e muito mais longe. eis que hoje ele está metodicamente seguindo seu caminho para o trabalho que ele nunca gostou, mas que resolvia as contas, como todo mundo faz, e lá está ela. é ela sem dúvida. de costas mesmo não há dúvida. louco. ela vira, seu perfil inconfundível. é ela. anda em sua direção, pára, respira fundo e, delirando, pensa em ir embora dali rápido. mudar o caminho, faltar no trabalho, desaparecer, fazer tipo, qualquer coisa. mas, sim. ele tem orgulho. ele vai falar com ela. olhar no olho. ser grande, enorme. e deixar ela pra trás. chega ao lado dela. foram tantos anos. e ela é mais velha. fantasia número um riscada. bom. seu delírio agora é menos colorido. se sente seguro. oi. oi. tudo bem, como está, e essas coisas de quem não se vê há tempos, a vida, a família, o trabalho, o que tem feito. em instantes. bom, preciso ir indo, ah, eu também, trabalho, horário, sabe como é, claro, imagina. bom, quem sabe a gente não toma um café um dia desses, claro, com certeza. nenhum endereço trocado, nenhum telefone trocado, nem comercial nem de casa nem do bolso. bom te ver. um pouco menos louco. vai saindo leve, que bom começo de dia. nunca é tarde pra desatar um nó desse tamanho. está virando e ela dispara. como você chama mesmo?
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5 comentários:
:D
Só mais um nó no emaranhado.
hm, doeu. !
Nossa filho!!! neste conto (ou crônica) vc me surpreendeu. Muitíssimo bem construída, tem um creacente de satisfação do personagem que pega a gente, torce-se por ele. Mas aí o grão finale. o grande baque.Caramba, Bru, eu adorei!!!! Bjs. Márcia
Bruno, está ótimo, bem escrito, entrtem o suficiente para não deixar a gente parar de ler. Belo final! Parabéns, Gustavo.
a gente vai se identificando, como se vc soubesse da gente, sem disfarces. E aí, chega a doer! Como pode a palavra tocar desse jeito?!
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