segunda-feira, 1 de setembro de 2008

discorda daquilo tudo e ainda assim não fala nada. não tem a coragem necessária para isso, nem a vontade e muito menos a presença para que isso seja possível. tem sido sempre desse jeito e essa vida pequena, como ela mesma avalia, não tem muito orgulho de ser. não sabe lidar até hoje com o embate, algo maior do que o prazer dela em ver seu interlocutor acompanhar suas palavras compactuando em movimentos curtos da cabeça. é mais do que a simples segurança de não ter uma opinião divergente sobre o assunto quando perguntada, é uma ação que ela não quer aprender, não tem essa vontade, não encontra vantagem nisso. nesses anos em que se esforça em manter a mulher em primeiro plano, exatamente como esperam dela, aprendeu que é o sim quem traz a vantagem, nunca o não. nas mais diferentes situações comprova sua teoria nos sorrisos desenhados sob seu olhar. tão fácil não dizer nada dizendo sim, mais simples ainda dizer sim sem dizer nada. lembra de sentir desde pequena o desespero do não estampado em sua boca, a frieza de quem o recebe, a vontade de ser querida. quer muito que ele não esteja prestes a desistir, mas ama o jeito com que ele se destrói sem titubear, o ímpeto de quem não está perto de ninguém que ele tem, a insistência dele em ser sozinho. a poucos passos de distância, finge não haver gritos de expectativa, e sente com força e intensidade uma espécie de incômodo moral por se abster mais uma vez. faz muita força mesmo para não ouvir a pergunta óbvia que ocupa seu pensamento. porque ela não interfere, diz o que acha, cobra atenção, exige resolução imediata? aprendeu que só existe o que ela quer, e é exímia na aplicação desse conceito. hoje é difícil olhar e não ver nada. sempre que os envolvidos ganham alguma importância, um nome, por inércia que seja, o plano fica mais difícil. ela o admira há tanto tempo e tem tanta raiva disso, tanta dificuldade em dizer isso pra ela mesma, em discutir com si mesma. prefere dizer sim, antes de a qualquer pessoa, a ela mesma. e o faz, quando cega atravessa as quatro pistas em diagonal, cobrando o cuidado alheio, sem nunca entender bem o quanto o outro é de fato importante na fórmula. se pergunta muito isso, apenas quando está distraída, cerceado que é na raiz o questionamento. força tanto um jeito de ser que intui a reação idealmente natural, atestando sua competência. quando percebe, está trocando um olhar, gratuitamente, o que a deixa extremamente preocupada com sua índole. de forma diversa de quem tenta ignorar, também vive sozinha, rodeada de gente. olha dentro de seu próprio decote, e isso é sempre reconfortante, conhece aquela forma, aquela textura, o poder delas acima de tudo a deixa tranqüila. sente uma pressão levemente involuntária das pontas de dois de seus dedos por dentro de seu bolso. abre a boca em reflexo, um pouco apenas. desaparecem as pessoas, não ouve, sente o conhecido cheiro daquela situação em que culminam os seus medidos e reagidos sins. ser desejada supre bem a falta de carinho e é muito mais seguro. sente o próprio sorriso se formar e abrir, causando impacto, gosta do movimento leve e intenso e ininterrupto dessa ação, e gosta mais ainda da efemeridade do contato. sozinha nada pode dar errado e, em instantes, lembra apenas das possibilidades dos próximos passos. como se não houvesse um outro sequer no mundo. anda segura e determinada sem olhar. assertivamente anestesiada, intuitivamente curada. sozinha.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

não que ele quisesse de fato levar aquilo tudo a cabo ou mesmo que ele quisesse mais é que o mundo todo fosse pra puta que o pariu, mas há situações que exigem assertividade, e era o caso. ela o havia humilhado publicamente e, de uma forma ou de outra, já estava feito. se sabendo como se sabe, a culpa é inevitável agora. mas por todo o processo não houve dúvidas: atravessar a vida, ou o que restasse dela, com culpa ou com vergonha? teria sido uma escolha fácil, estúpida até, se não fosse apresentada no calor da cena, mas houve uma inesperada virada, bem naquele dia, naquela hora. agora, quando pensa nisso, a culpa quer gritar mais ainda, daí o seu silêncio. uma vida toda de resignação muda em um ato? agora, quando a mudança já não poderia mais ser bem-vinda? porque não quando criança, um soco na cara daquele moleque folgado que jogava seu lanche no lixo na terceira série? porque não aos 14, um sonoro vai-se-foder-sua-vagabunda praquela vizinha que, mesmo amiga de sua mãe e irmãos, fazia questão de humilhá-lo em frente de qualquer outra garota porque ele ainda não havia beijado? porque não na época daquela mulher, primeira namorada, com uma comida na melhor amiga com direito a não-achei-meu-pau-no-lixo, quando o largou e fez questão de dizer a todos o motivo, sua brochada fenomenal e insolúvel logo na primeira vez? porque não no trabalho, já aos 30 e tantos, uma puxada de tapete bem arquitetada pro filho da puta que tinha a coragem de lhe chamar de pimpolho e mandar e-mails com cópia até pro cliente, comparando-o a um ser inanimado? mas enfim, se sua vida fosse como sonhou, ele seria seguro, desde criança, e teria andado e falado antes dos dois anos. agora é centro das atenções e, como nunca, quer desaparecer, ser como sempre foi, absolutamente invisível. mas não. hoje completos desconhecidos o reconheceram sem sombra de dúvida em rede nacional. hoje mulheres gostosas, novas, sensuais o olharam com respeito. ou teria sido tesão? não saberia dizer. aos 40, não tem essa experiência, nunca se sentiu desejado. em suas reflexões tinha certeza que esse aspecto, essa sensação de não ter sido desejado, tinha que estar errada, ele apenas não havia percebido. isso sim era o provável. assim como não falou cedo "porque preferia não dizer nada a dizer bobagem", ou não andava "porque não tinha pra onde ir", o colega de trabalho era inseguro, a namorada lidou mal com a frustração, a menina do bairro devia mesmo era gostar dele e pena que ele não percebeu na época, e o moleque da escola tinha passado por problemas de família. mas hoje não. hoje, só hoje ele fez diferente. sentado ali, sozinho, com as mãos presas pra trás a um cano, azulejos quebrados, brigando com a culpa que queria tomar conta dele, tentava repassar aquele final de tarde. ponto de ônibus, calçada, pessoas, uma trombada, outra. carros gritando em seus ouvidos, pessoas mexendo lábios, agindo, reagindo e nada de palavras. quer só chegar em casa pra poder dormir e chegar logo no trabalho e estar ali de novo, pensando em dormir logo. gritos. não eram raros, mas sempre incômodos. alguém parece olhar pra ele e ele teve certeza de que era através. ninguém nunca olha pra ele. gritam com ele. percebia os gritos na rua pela movimentação das pessoas, pela atitude delas, feições, tons de voz, não pelas palavras. não ouvia nada na rua. nada nunca era com ele. vira-se e vê uma mulher, de boca aberta, braços levantados, veias da testa saltadas. sente uma certa tontura, tenta olhar em volta e dezenas de pessoas o observam, com desdém, curiosidade, raiva. raiva? de canto de olho sente um tapa em seu rosto. o anel dela o cortara. no rosto, como quando moleque chegou em casa sangrando, também ali, e acabou apanhando de novo. não entendeu na época se porque tinha brigado ou porque tinha apanhado. decidiu naquele dia jamais estar perto disso novamente, evitando represálias. um soco na cabeça e, mais doído que isso, uma acusação absurda. ele é, agora, inimigo público. nunca sentira tanta hostilidade direcionada a ele. quase sorri com isso. dezenas de pessoas o observam, curiosas acima de tudo. curiosas por ele. sensação nova. sente um impacto fortíssimo em algum lugar de seu corpo, parece de dentro pra fora, não saberia dizer. clarão. outro impacto. gosto esquisito, meio salgado, chão. gritam com ele, mas ele mal enxerga agora, o que torna sua audição ainda mais precária. alguém está ajoelhado em sua cabeça, mexem em seus bolsos. soltam-no, sente dores incômodas em sua cabeça, seu peito, seu rosto. ao levantar, com a ajuda do ajoelhado, ouve desculpas, ganha dois tapinhas nas costas e olhares com os quais estava mais acostumado, de pena, dó, além de mais curiosidade e um pouco de solidariedade até. solidariedade. que olhos lindos, castanhos clarinhos, doces, pele morena bem clarinha em volta deles, uma sobrancelha linda, delineada. nariz delicado, uma boca tão macia. seu rosto pulsa um pouco. a acusadora, de dedo em riste ainda não desistira. mas aquele olhar, que delícia. percebe que ela ainda o olha. e como era linda. uma mulher, e linda, o olha. e é um sentimento bom. não ri, não escracha, não acusa, não desdenha. e era uma mulher. e linda. empurram ela, e a acusadora, por um momento perfeitamente inteligível, diz que ele tinha dado um jeito, mas era claro que era ele, que quem é inocente se defende. inocente? e alguém era inocente? nunca se sentiu assim na vida. como se defender, como ser íntegro, sem nunca ter merecido? olha para o lado. que delícia, ela parece concordar com ele, olha para acusadora e faz que não com a cabeça, coloca a mão apertando levemente seu peito. e é linda ela, completamente. e agora, a maior surpresa do dia, da sua vida. ela esboça um meio sorriso, pra ele, certamente pra ele, apontando que há vida no espaço, comprovando a validade da existência humana. outro tapa na cara. a acusadora grita com ele loucamente, pessoas a seguram. percebe o tapa porque ela, linda, apertara os olhos, assustada, um instante antes. sem decidir nada, faz. um soco. o primeiro soco da sua vida. bem no meio da cara dela, que pára. pára de atacá-lo, pára de andar em sua direção, pára até de gritar, depois de expressar uma dor inicial. algumas pessoas o seguram e ele busca, alheio ao tumulto criado, os olhos dela. e acha, assustada, com as mãos sobre a boca agora, os olhinhos, tão lindos, apertadinhos. por ele. o silêncio é tranqüilo, dá uma sensação grande de perenidade. pessoas por perto se movem apenas em quadros, estáticos. vê a foto de um homem, em preto e branco, talvez fardado, olhando bem no olho da câmera, de punho fechado, preparado para o soco, tampando justamente a visão dela. muita dor, como se fosse por dentro dele, partindo de seu estômago talvez, se espalhando pelos ossos como um choque. acha que ouve a voz dela. tão linda, só pode ser dela, discordando daquilo tudo. agora está ali, sentado no frio. e sozinho, mas, repassando, não tão sozinho quanto estava antes de ver os olhos mais lindos do mundo. a culpa, que naturalmente se instala nos seus ombros, parece até mais leve agora que ouve a voz dela. hoje, só hoje, ela olhou pra ele, teve compaixão por ele, concordou com ele. e o defendeu. e era uma mulher. e linda. perfeitamente linda. o rosto dói demais, sua cabeça pulsa, arde, seus braços doem demais também, não enxerga nitidamente com seu olho esquerdo, sente um aperto anormal no peito, muito mais dolorido que nas noites frias e solitárias, qualquer noite da vida dele. sente frio demais ali, só pode ser febre, seus músculos tensos. um graduado passa e qualquer contato é evitado por ambas as partes. retoma então, mais calmo e mais uma vez, o final de tarde e, descontados os contratempos, sorri pra ela e seus olhinhos apertados de indignação. no melhor dia de toda a sua vida.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

e não é que a morte, que não tinha conversado muito comigo ainda, resolve que vai me olhar de frente. é, e não foi nada comigo. nem com um próximo. alguém que eu admiro. estranho isso. sempre fui meio anestesiado com relação a ela. verdadeiramente. meu avô, josé, me faz pensar. meu pai, josé, no bairro ao lado, de barbas brancas e anos de distância, também. mas doer em mim ela ainda não tinha conseguido. que sensação ruim. e as pessoas, sempre tão, tão cheias empatia, sempre tão, tão solidárias, sempre tão distantes da dor. porque sentir compaixão por desconhecidos é certamente mais provável. porque conhecer é arriscado e tudo o mais. e de risco queremos distância. que seja. mas não funciona assim em mim. meus execrados heróis internos são construídos através do meu amor. aparte os heróis dos meus heróis, só os que eu conversei. conheci. e gostei. e aí que um grande foi, e foi correndo e tal. e me amarga pensar que na verdade não o conheci. meio que eu o faria ainda. enfim. mas há um desejo de reconhecimento dessa morte sublime. que se perceba que uma overdose não é uma porra de acidente de carro. que merda. e que sublime somos nós dentro de nós mesmos, mesmo que geralmente apenas através da janela dos outros. que se foda, sentar levantar correr concordar aceitardormirsentir pacotes de emoção estéril, aceitação em 12x sem juros, amor de manual, sexo intelectual, raivas encaixotadas, ódios modulados e tão afinados que são amores. que porra isso. que gritar não pesa, que correr não muda, ainda que diminua impactos. e alguém que eu admirava e que está à minha frente morreu. que distância essa: alguns dias de proximidade enorme, agora. e que memória é imortalidade e que produto de trabalho, que a arte é imortalidade, não interessa. porque quando a gente é pego assim, de susto, e acho que sempre vai ser de susto, não há tempo de deixar história nenhuma. existir, para sempre, apenas no outro, é morte. a morte. e mortos, por todos os lados mortos fazem história através da janela dos outros. e alguns vivos, os raros, os queridos vivos, vêm morrer dentro de mim.

terça-feira, 11 de março de 2008

quer mais é que se foda enquanto anda pé na frente do pé de cabeça baixa em dia cinza e sem graça como ele mesmo e seu jeito de associar idéias de analisar tudo o que não interessa e faz fumaça com força e naturalidade e seu senso de resignação grita e ele como seu pensamento e seu jeito de se importar com o que não interessa e como às vezes o ar e o barulho infernal dessa rua igual a todas as outras que ele conhece mesmo tão cheia de peculiaridades sendo que é isso mesmo e apenas isso que importa a fumaça segurada a brasa queimando dedos olhares curtos mato seco cimento vento o vento que soa sempre importante cheio de gás venenoso assim que ele sente intoxicado e olhares rasos chega de olhares sem olho chega de sorriso à toa aliás não sorri faz um tempo e o faz de nervoso e de vergonha às vezes seguindo devagar pro ponto de cabeça baixa e atento às mesmas paredes e pedaços de tela e respira e enche o peito e apruma as costas e solta mais fumaça e veneno e esse barulho filho da puta que cansa e ele se sabe pouco e é pouco quando o sol abre irritante em sua cabeça quente paca úmido e produz sombras interessantes mesmo entre uns dois passos e mato seco e sujeira por todo lado e tantas peculiaridades naquele lugar tão comum e tão dele e tão incógnito e o corpo que fraqueja calculado leveza tomada da sua reserva especial e fluidez desejada e buscada com afinco e mato amassado tropeça e sorri sem merecimento e olha pra trás e pros lados e pra frente e que merda não vê luzes vermelhas e azuis em porquinhos cinzentos e quase um desagravo do transeunte mas evitado o olhar quem é que vai topar essa e mais passos sem vontade e quase pensa em algo prático mas sem vontade pára de olhar e faz fumaça e anda agora no módulo de emergência em velocidade cruzeiro e só a dor física acorda ele da maior parte da vida e ímpeto que já foi maior obriga a ser corajoso e há uma vontade de que isso aconteça e coloca um arame no braço através e puxa e torce e não tem muito porque quase que um espetáculo indesejado para ninguém sem aprovação nem desgosto e essa merda que dói e não sangra e um nervo que agora dá pra ele sentir do dedão da mão até o cotovelo uma dor fina meio deslocada no corpo e como isso é de fato interessante solta mais fumaça e como isso é agradável e respira sem fôlego e finalmente se mostra vivo e um pouco de sangue corre enfim pelos buraquinhos novos em seu braço e é só o braço e é tão pouco sente-se tão fraco tão covarde e aquele humor que corta qualquer barato se instala novamente e resignado ouve o arame cair às suas costas mato seco ponta que queima a mão mais fumaça e um pouquinho de sangue no braço já secando inumano e queria mesmo era fazer uma traqueostomia live p.a. e espirrar fluidos mal cheirosos em alguém que na verdade estaria pouco se fodendo como ele e seus pensamentos insignificantes cheios de fumaça e fumaça e fumaça e sua atenção metódica atrapalhando seus vôos e como o mundo fica pequeno de verdade olhando para seus pés e peitos deliciosos parecem perceber sua presença o que o enraivece de tal forma que um soco na cara era pouco pra essa vagabunda assim como pra ele e era assim que ele sentia mesmo calmo e descobre que vai ter que falar e que desespero a simples idéia de sair por aí trocando o que quer seja com o mundo e sua presença quase que de licença é assim que ele sente fraco agarrado a raízes sementes florações folhas e sem metáfora porra nenhuma dependente químico de tristeza ri só de si mesmo sem grandeza nenhuma e dois furinhos no braço com gota suja pulsam e o faz ter um tanto de raiva de si mesmo e aqueles peitos incríveis acoplados em pele certamente macia exalam um cheiro insuportável de contato já no ponto mesmo ponto cinza com sol e tudo e com as mesmas paredes invisíveis e sem metáfora porra nenhuma e fumaça sociável e quer mais é que se foda e incomoda o outro incomodam as vozes incomoda para ele estar mas enfim devem ser uns 100 10 minutos assim esses dias mesmo e ninguém viu e ele não contou pra ninguém quase acordado quase sensível come a ponta e pára no ponto e respira fundo porque a rigor não pensou em nada não fez nada não decidiu nada não planejou nada não resolveu nada e é assim mesmo que é como em seu jeito idiota de associar as coisas

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

e no entanto não entendo como entrei por aquela porta sem me perguntar, nem que fosse por um instante, se encontraria o que estava esperando. a luz apagada, o ambiente pesado, apertado, sombrio, frio não ajudou em nada na leve doidera que se instalava nos meus pensamentos. apertava os olhos e mesmo assim não distinguia uma única sombra. das hipóteses mais aceitáveis, comedidas, lógicas, rapidamente comecei a me apertar com aqueles sustos que o pensamento turvo dá. logo estava confusa. porque ainda estava sozinha? mais de um minuto acho. no escuro. já nem queria mais entender o que me esperava, aterrorizada com a idéia de que talvez já não pudesse mais sair. já não sabia ao certo se deveria ter entrado e procurado o interruptor. porque não procurei o interruptor, me perguntei. culpa. a culpa era muito grande. eu não devia nem ter pensado em estar ali, daquele jeito. pelo telefone. tudo pelo telefone. por escrito. minha cabeça começou a doer nessa hora. quase dois minutos, um minuto e meio talvez. porque me deixam no escuro, doíam meus olhos, estava assustada. tinha que ir embora. quase me movi. percebi que estava curva, em ângulo com o chão, os pés juntos. a ponta do meu sapato encostava em algo. minhas costas tocaram, nesses dois minutos, constantemente algo incômodo, uma quina, algo assim, que se destacava do que parecia ser um armário. me afastei sempre como que de algo quente. eu nem entendia onde estava. nem de pé, direito, eu estava. quase me movi e ouvi algo. não respirei, mas não de medo, de atenção. não se pode ouvir direito com o ar correndo pelos canais tão próximos ao ouvido. também não pensei naquela hora. atenção. quase uns 5 segundos ou mais. ou mais. minha cabeça pulsou forte. doeu de verdade. me movi. foi quando senti um pânico perverso tomando conta de mim. quis correr. e não consegui. quase chorei. mas não tive coragem. não conseguia me conformar com o fato de não conseguir entender aquela situação. minha cabeça não doeu mais. 2 minutos, agora com certeza. ou mais. ou mais. poderia estar lá há meia hora, fosse a intensidade a medida. tateei. achei a maçaneta. quando toquei nela, senti uma descarga fortíssima de adrenalina. no corpo inteiro. meu sangue pulsou a pressão baixou. fiquei muito puta comigo. vai embora caralho. foda-se! abri a porta e saí andando forte. suando. suando. que caralho que eu fui fazer lá. puta que o pariu. que que eu fui fazer lá?