segunda-feira, 28 de abril de 2008

e não é que a morte, que não tinha conversado muito comigo ainda, resolve que vai me olhar de frente. é, e não foi nada comigo. nem com um próximo. alguém que eu admiro. estranho isso. sempre fui meio anestesiado com relação a ela. verdadeiramente. meu avô, josé, me faz pensar. meu pai, josé, no bairro ao lado, de barbas brancas e anos de distância, também. mas doer em mim ela ainda não tinha conseguido. que sensação ruim. e as pessoas, sempre tão, tão cheias empatia, sempre tão, tão solidárias, sempre tão distantes da dor. porque sentir compaixão por desconhecidos é certamente mais provável. porque conhecer é arriscado e tudo o mais. e de risco queremos distância. que seja. mas não funciona assim em mim. meus execrados heróis internos são construídos através do meu amor. aparte os heróis dos meus heróis, só os que eu conversei. conheci. e gostei. e aí que um grande foi, e foi correndo e tal. e me amarga pensar que na verdade não o conheci. meio que eu o faria ainda. enfim. mas há um desejo de reconhecimento dessa morte sublime. que se perceba que uma overdose não é uma porra de acidente de carro. que merda. e que sublime somos nós dentro de nós mesmos, mesmo que geralmente apenas através da janela dos outros. que se foda, sentar levantar correr concordar aceitardormirsentir pacotes de emoção estéril, aceitação em 12x sem juros, amor de manual, sexo intelectual, raivas encaixotadas, ódios modulados e tão afinados que são amores. que porra isso. que gritar não pesa, que correr não muda, ainda que diminua impactos. e alguém que eu admirava e que está à minha frente morreu. que distância essa: alguns dias de proximidade enorme, agora. e que memória é imortalidade e que produto de trabalho, que a arte é imortalidade, não interessa. porque quando a gente é pego assim, de susto, e acho que sempre vai ser de susto, não há tempo de deixar história nenhuma. existir, para sempre, apenas no outro, é morte. a morte. e mortos, por todos os lados mortos fazem história através da janela dos outros. e alguns vivos, os raros, os queridos vivos, vêm morrer dentro de mim.