não que ele quisesse de fato levar aquilo tudo a cabo ou mesmo que ele quisesse mais é que o mundo todo fosse pra puta que o pariu, mas há situações que exigem assertividade, e era o caso. ela o havia humilhado publicamente e, de uma forma ou de outra, já estava feito. se sabendo como se sabe, a culpa é inevitável agora. mas por todo o processo não houve dúvidas: atravessar a vida, ou o que restasse dela, com culpa ou com vergonha? teria sido uma escolha fácil, estúpida até, se não fosse apresentada no calor da cena, mas houve uma inesperada virada, bem naquele dia, naquela hora. agora, quando pensa nisso, a culpa quer gritar mais ainda, daí o seu silêncio. uma vida toda de resignação muda em um ato? agora, quando a mudança já não poderia mais ser bem-vinda? porque não quando criança, um soco na cara daquele moleque folgado que jogava seu lanche no lixo na terceira série? porque não aos 14, um sonoro vai-se-foder-sua-vagabunda praquela vizinha que, mesmo amiga de sua mãe e irmãos, fazia questão de humilhá-lo em frente de qualquer outra garota porque ele ainda não havia beijado? porque não na época daquela mulher, primeira namorada, com uma comida na melhor amiga com direito a não-achei-meu-pau-no-lixo, quando o largou e fez questão de dizer a todos o motivo, sua brochada fenomenal e insolúvel logo na primeira vez? porque não no trabalho, já aos 30 e tantos, uma puxada de tapete bem arquitetada pro filho da puta que tinha a coragem de lhe chamar de pimpolho e mandar e-mails com cópia até pro cliente, comparando-o a um ser inanimado? mas enfim, se sua vida fosse como sonhou, ele seria seguro, desde criança, e teria andado e falado antes dos dois anos. agora é centro das atenções e, como nunca, quer desaparecer, ser como sempre foi, absolutamente invisível. mas não. hoje completos desconhecidos o reconheceram sem sombra de dúvida em rede nacional. hoje mulheres gostosas, novas, sensuais o olharam com respeito. ou teria sido tesão? não saberia dizer. aos 40, não tem essa experiência, nunca se sentiu desejado. em suas reflexões tinha certeza que esse aspecto, essa sensação de não ter sido desejado, tinha que estar errada, ele apenas não havia percebido. isso sim era o provável. assim como não falou cedo "porque preferia não dizer nada a dizer bobagem", ou não andava "porque não tinha pra onde ir", o colega de trabalho era inseguro, a namorada lidou mal com a frustração, a menina do bairro devia mesmo era gostar dele e pena que ele não percebeu na época, e o moleque da escola tinha passado por problemas de família. mas hoje não. hoje, só hoje ele fez diferente. sentado ali, sozinho, com as mãos presas pra trás a um cano, azulejos quebrados, brigando com a culpa que queria tomar conta dele, tentava repassar aquele final de tarde. ponto de ônibus, calçada, pessoas, uma trombada, outra. carros gritando em seus ouvidos, pessoas mexendo lábios, agindo, reagindo e nada de palavras. quer só chegar em casa pra poder dormir e chegar logo no trabalho e estar ali de novo, pensando em dormir logo. gritos. não eram raros, mas sempre incômodos. alguém parece olhar pra ele e ele teve certeza de que era através. ninguém nunca olha pra ele. gritam com ele. percebia os gritos na rua pela movimentação das pessoas, pela atitude delas, feições, tons de voz, não pelas palavras. não ouvia nada na rua. nada nunca era com ele. vira-se e vê uma mulher, de boca aberta, braços levantados, veias da testa saltadas. sente uma certa tontura, tenta olhar em volta e dezenas de pessoas o observam, com desdém, curiosidade, raiva. raiva? de canto de olho sente um tapa em seu rosto. o anel dela o cortara. no rosto, como quando moleque chegou em casa sangrando, também ali, e acabou apanhando de novo. não entendeu na época se porque tinha brigado ou porque tinha apanhado. decidiu naquele dia jamais estar perto disso novamente, evitando represálias. um soco na cabeça e, mais doído que isso, uma acusação absurda. ele é, agora, inimigo público. nunca sentira tanta hostilidade direcionada a ele. quase sorri com isso. dezenas de pessoas o observam, curiosas acima de tudo. curiosas por ele. sensação nova. sente um impacto fortíssimo em algum lugar de seu corpo, parece de dentro pra fora, não saberia dizer. clarão. outro impacto. gosto esquisito, meio salgado, chão. gritam com ele, mas ele mal enxerga agora, o que torna sua audição ainda mais precária. alguém está ajoelhado em sua cabeça, mexem em seus bolsos. soltam-no, sente dores incômodas em sua cabeça, seu peito, seu rosto. ao levantar, com a ajuda do ajoelhado, ouve desculpas, ganha dois tapinhas nas costas e olhares com os quais estava mais acostumado, de pena, dó, além de mais curiosidade e um pouco de solidariedade até. solidariedade. que olhos lindos, castanhos clarinhos, doces, pele morena bem clarinha em volta deles, uma sobrancelha linda, delineada. nariz delicado, uma boca tão macia. seu rosto pulsa um pouco. a acusadora, de dedo em riste ainda não desistira. mas aquele olhar, que delícia. percebe que ela ainda o olha. e como era linda. uma mulher, e linda, o olha. e é um sentimento bom. não ri, não escracha, não acusa, não desdenha. e era uma mulher. e linda. empurram ela, e a acusadora, por um momento perfeitamente inteligível, diz que ele tinha dado um jeito, mas era claro que era ele, que quem é inocente se defende. inocente? e alguém era inocente? nunca se sentiu assim na vida. como se defender, como ser íntegro, sem nunca ter merecido? olha para o lado. que delícia, ela parece concordar com ele, olha para acusadora e faz que não com a cabeça, coloca a mão apertando levemente seu peito. e é linda ela, completamente. e agora, a maior surpresa do dia, da sua vida. ela esboça um meio sorriso, pra ele, certamente pra ele, apontando que há vida no espaço, comprovando a validade da existência humana. outro tapa na cara. a acusadora grita com ele loucamente, pessoas a seguram. percebe o tapa porque ela, linda, apertara os olhos, assustada, um instante antes. sem decidir nada, faz. um soco. o primeiro soco da sua vida. bem no meio da cara dela, que pára. pára de atacá-lo, pára de andar em sua direção, pára até de gritar, depois de expressar uma dor inicial. algumas pessoas o seguram e ele busca, alheio ao tumulto criado, os olhos dela. e acha, assustada, com as mãos sobre a boca agora, os olhinhos, tão lindos, apertadinhos. por ele. o silêncio é tranqüilo, dá uma sensação grande de perenidade. pessoas por perto se movem apenas em quadros, estáticos. vê a foto de um homem, em preto e branco, talvez fardado, olhando bem no olho da câmera, de punho fechado, preparado para o soco, tampando justamente a visão dela. muita dor, como se fosse por dentro dele, partindo de seu estômago talvez, se espalhando pelos ossos como um choque. acha que ouve a voz dela. tão linda, só pode ser dela, discordando daquilo tudo. agora está ali, sentado no frio. e sozinho, mas, repassando, não tão sozinho quanto estava antes de ver os olhos mais lindos do mundo. a culpa, que naturalmente se instala nos seus ombros, parece até mais leve agora que ouve a voz dela. hoje, só hoje, ela olhou pra ele, teve compaixão por ele, concordou com ele. e o defendeu. e era uma mulher. e linda. perfeitamente linda. o rosto dói demais, sua cabeça pulsa, arde, seus braços doem demais também, não enxerga nitidamente com seu olho esquerdo, sente um aperto anormal no peito, muito mais dolorido que nas noites frias e solitárias, qualquer noite da vida dele. sente frio demais ali, só pode ser febre, seus músculos tensos. um graduado passa e qualquer contato é evitado por ambas as partes. retoma então, mais calmo e mais uma vez, o final de tarde e, descontados os contratempos, sorri pra ela e seus olhinhos apertados de indignação. no melhor dia de toda a sua vida.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
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