terça-feira, 13 de outubro de 2009

9h53 – consciência em loop

uma dor absurda nasce no centro do seu corpo. procura ignorar. acorda um dia de manhã e ela começa a estender suas raízes. anda e sente que das suas costas ela parece descer para as pernas. não chega a ser uma novidade, vive com dores. nunca na cabeça, sua fortaleza. vai andando pela rua e percebe uma certa limitação no movimento. ignora.

uma menina com um bebê no colo. terror.

numa sala branca a mãe dos dois engana a câmera de vigilância, fazendo com que se sinta culpado. não tem dúvida do perigo no entanto. o pai, bonachão, voa em roupa decadente, escapando do fosso de observação de cueca por fora da fuseau e capa, e tem na testa uma placa de metal orgânico que escapa das bordas de carne viva. consegue olhar de perto por um instante apenas e a placa que parecia um desenho na verdade escreve consciência.

ao mesmo tempo, do lado de fora, no gramado, a família, absolutamente mediana, faz sua defesa. o pai inflamado, a mãe colocando panos quentes, a menina impassível. o bebê no colo sorri e mexe os braços e pernas. sua dor parece crescer. há algo de muito errado nisso tudo e não os deixa sair do gramado, fundos de sua fortaleza. do painel central dos controles, na frente do fosso de observação, assiste ao vídeo de segurança. a mulher engana. em flashes impossíveis de serem revistos ela age monstruosamente para escapar, derrubar a porta. ao seu lado lá está ela colocando panos quentes na gritaria movimentada do pai. a dor enlaça sua coluna. a menina, impassível, tem agora o bebê enrolado no seu cobertor, que aparece apenas da barriga pra cima, dentro do seu macacão de tecido macio. algo tem que estar muito errado nisso. foi atacado e a dor não permite outra conclusão. quase não consegue andar.

de volta ao posto de controle o pai que saía voando de dentro do poço desaparece e está de volta ao gramado. decide ser direto e dizer que o bebê tem braços compridos e muito fortes. e que não tem pernas. mas a menina com meio sorriso segura o bebê sempre sorrindo, agora novamente com a pernas balançando no ar. isso não está certo. a dor agora começa a ganhar a batalha dentro de seu corpo, dói do alto das costas aos seus pés. movimentos limitados. sabe que o bebê na verdade não tem pernas. e a menina mostra que não tem mesmo e descobre o bebê que estava coberto novamente. é um peixe da metade pra baixo. seus braços se alongam musculosos, ainda mexendo de um lado pro outro, com aquele sorriso angelical de recém nascido. e o braço direito, em pleno quintal gramado, alcança seu rosto e dá um tapa em sua cara.

sentado na cadeira do comando central revê o vídeo. gente perigosa essa. quase não consegue levantar mais, mesmo os movimentos de seus braços ou pescoço fazem o centro de seu corpo doer um absurdo. algo abraça sua coluna por dentro, algo bem real. a mãe não tem nada de calma, controla o que ele pode ver. mas sua cabeça também tem força e consegue analisar a alimentação agora ao vivo da sala branca. ela está lá dentro. em flashes impossíveis de gravar ela está tentando destruir a porta. ouve as pancadas, rápidas, fortíssimas, barulhentas, num ambiente à prova de som. e ela está parada, calma, de braços cruzados. e está às suas costas. enquanto o pai voa aquele trecho, do fundo do poço de segurança até um pouco mais alto que sua cabeça, à sua frente, e isso se repete em loop, olha pra trás e ele também está às suas costas. reclamando sem parar. a mãe calma. a menina cada vez mais enigmática, com o bebê que parece ter menos controle do que eles, com meio corpo de peixe, braços nem tão compridos assim, mas verdadeiramente musculosos, se mexendo como faz um recém nascido muito bem humorado, sorrindo.

parece estar preso na cadeira de comando, não pela cadeira em si, mas pela impossibilidade de levantar-se. tenta alcançar as costas, que dor absurda, e não consegue alcançar o ponto central da dor. seu braço não chega lá. algo está destruindo seu corpo por dentro. está pensando em liberar a família, algo está errado demais, e ele não consegue manter o controle da situação. o pai numa sala, preso lá embaixo, refaz o caminho voando em loop e reclama às suas costas no quintal. a mãe, presa lá embaixo, calma, correta, tenta derrubar a porta com força e velocidade descomunal e também está no quintal às suas costas, tentando acalmar todo mundo e argumentando que sim, o mais novo dela tem rabo de peixe, mas e daí, isso não faz mal a ninguém e que os seus braços na verdade não esticam. toma um soco na cara, do bebê, que estica seu braço até a sua cadeira e sorri. a menina ainda tem ele no colo, com um sorriso encabulado no rosto. ela parece ser a chave daquilo tudo, mas mal consegue girar a cadeira do centro de comando, uma vez que seus pés não conseguem se mexer sem causar uma dor absurda no centro de seu corpo. sua cabeça entende a simultaneidade daquilo tudo, mas não a dor.

a menina deve ter algo pra dizer, mas em sua cela não há câmeras de segurança, nem na do pai. apenas na sala de testes, sem móveis e branca da mãe. que tem um poder impressionante sobre os equipamentos de varredura eletrônica que a sala especial comporta. desafia mesmo a percepção do controle central. e estão todos às suas costas. e quando ele em esforço extremo se vira para olhar para eles no quintal gramado, com muros e plantas muito comuns em quintais gramados e com plantas, eles estão lá, naquela cena que só pode estar gravada para que ele seja enganado. não consegue mais levantar-se e lembra de tentar usar dois aparelhos ainda não testados e recebidos daqueles três irmãos com quem não tinha muito contato, e lembra com clareza que o irmão do meio havia frisado que ele usasse o relógio de pulso largo e sujo de óleo. que estava de fato usando, mesmo não vendo motivo para relógios. e não gostando de sujar as mãos. mas não conhece aquele equipamento e não sabe o que ele faz. e não entendeu até agora pra que serve aquela espécie de gps de pendurar no pescoço que mais parece uma prancheta, com o clipe de papel e tudo, ainda que preta e com touchscreen. é melhor deixar esse pessoal sair. mas não consegue mais alcançar a gaveta. ele parece estar crescendo por dentro, e provavelmente não há mais tempo.

consciência vazando metálica pela testa do pai de cueca por cima da fuseau. em loop. e nem seus braços se movem mais. apenas sua cabeça mantém as faculdades normais e sabe que isso não é novidade nenhuma. vai ser engolido e sabe disso. não há medo nenhum, apenas uma certa revolução de pensamentos rápidos e claros em tentativas de resolver esse problema todo. não pra ele. para os outros. há que se cuidar de todo mundo em volta e sua cabeça vai resolver esse problema todo. suas costas crescem e sabe que o que sente é uma raiz que se desenvolve em sua coluna. apertando ela, fazendo com que todos os seus nervos, por ordem da medula, inflamem. mas não há um problema real porque sua cabeça ainda pensa limpo e isso vai ser resolvido. a não ser que ele seja engolido antes.


a menina agora à sua frente sorri encabulada, sem o bebê no colo, e esse bebê solto deve causar problema, mesmo ela tendo suas mãos cruzadas. ela olha no seu olho e ele afunda. a mãe continua a tentar derrubar a porta. o pai voa em loop. o bebê não está a vista, mas sabe que está às suas costas. e ele afunda mais e mais em líquido negro, com ondulações gigantes dum lago enlameado do qual não vai sair. ela o olha nos olhos. e ele sabe que é ela o centro disso tudo. que dor absurda nas costas. não quer mais ter a clareza que tem do que está acontecendo. prefere não saber que sua coluna está sendo esmagada por raízes. mas não consegue deixar de olhar ela no olho. muito perigosa essa menina inofensiva nessa família que merece mais estudo. mas não há mais tempo. ele só tem a cabeça fora da poça negra, sentado na cadeira de controle da sala de comando. e a menina ainda o olha nos olhos de frente, com olhar doce e inofensivo. que dor absurda. onde estará o bebê rabo de peixe? de que adianta a clareza que ele não perde nem por um segundo? se afoga. sem que o ar lhe falte. sem controle. que dor absurda nas suas costas, no centro de seu corpo.