ouvi norte americanos inflamados em campanha pela eleição do libertador do mundo. os argumentos eram muitos e passavam todos pelo pressuposto de que há, sim, polarização na política bipartidária deles. frases que iam na linha do “nós precisamos dele. o mundo precisa dele.” abundaram. mas ouvi também alemães, argentinos, brasileiros defendendo as mesmas ideias. reproduzindo jingles, cantarolando posturas políticas mundiais, balançando bandeirinhas azuis e vermelhas com sorrisos de esperança.
mas as máscaras foram vestidas, os personagens foram criados. a realidade precisa de ficção. “finjamos que o dia está ensolarado, e ensolarado o dia estará.” nada de assustador. não depois do segredo ter sido contado a todo mundo.
e eis que a fala, aplaudida como uma missa em latim, como a defesa de pós-doutorado dum físico quântico transmitida em horário nobre, como um casamento em final de novela, diz exatamente o que quer dizer. como sempre.
( link com a íntegra do discurso de posse de barack obama http://noticias.uol.com.br/especiais/posse-barack-obama/ultnot/2009/01/20/ult7169u43.jhtm )
o sonho americano toma o mundo de assalto. fidelidade intrépida, trabalho feliz. prosperidade e liberdade como produto. não me soa novidade.
o mundo, entrincheirado e chacoalhando bandeirinhas, diz amém ao poderoso estado do atlântico norte, que ainda reconhece as relações diplomáticas como finais de campeonato. que a artilharia decida se a sua bandeira é branca. de herança, mais que um líder, ganhamos um pai, eleito por força democrática mundial, representada por 150 milhões de cidadãos de primeira classe. e como tal zela pelo rumo da prole, desde que nas regras da casa, claro. e com jargões na linha do “não me tire do sério”, “eu só quero o seu bem” e “vai doer mais em mim do que em você”, o recado: não é preciso mais do que um tapa bem dado. do tapa em diante, um olhar, por contido que seja, comprova a justeza da causa e silencia com força qualquer grito desesperado. afinal diferentes pontos-de-vista devem ser combatidos com mísseis, tanques e propaganda. certo? CERTO?
certíssimo, reajo eu. em terra de livre mercado quem tem cacife para cuidar do próprio umbigo é rei. e nosso monarca mundial, eleito por maioria absoluta, algo em torno de 2,5% da população do reinado, lidera de traz da linha de frente seu exército de elite em direção a qualquer aspirante ao trono, ou ao lado de lá da muralha, apagando e reescrevendo a história com tiros e manchetes.
assim seja meu grande líder. guia-me através do inferno da vida. serei fiel a ti e sei que és fiel a mim. escreves certo por linhas invisíveis. compreendes mais do que minha vã consciência me permite. assim seja, ó grande líder. dita-me tua regra que terás tuas metas realizadas por minhas mãos. assim seja grande líder. ensina-me a viver, dai-me o que não posso conseguir em grupo, faz-me único em sua imagem e semelhança, mas livrai-me do mal, pois já tenho medo do que não conheço e do que não lembro. assim seja, todo poderoso líder.
minhas preces feitas, meu perdão concedido após a penitência da deglutição de duzentos sapos por dia, todos os dias, a contar de hoje.
feliz no entanto, e cheio de esperança. eu preciso de você. o mundo precisa de você. obrigado a vocês, heroicos 2,5%. obrigado por me manter feliz e esperançoso. agora tudo mudou. as ideias e os discursos mudaram. as ações mudarão também, com certeza. muito obrigado, sinceramente, legítima elite. por permitir que eu possa novamente dormir tranquilo, sem medo de represália; por permitir que novamente possa sonhar com um futuro livre de violências físicas e morais. por permitir que eu, bastardo que sou, possa, novamente, ser livre para pensar exatamente como querem que eu pense, não como minha indomada mente aspira. obrigado por me iluminar.
de costas para a porta, três vivas aos próximos 4 anos – ou 292.200 sapos (não que eu esteja contando):
viva, viva, viva!
3 comentários:
gostei. melhor comentario da posse até agora.
valeu.
como vai lulu?
eu nao saquei a ordem da historia. começa aonde?
abraço do beto
bruno,
sua escrita-voz indignada é daquelas que vem lá do fundo dos tempos: de quem tem a História na mente e na vivência.
seu texto me fez lembrar - entre outras coisas: "cê tá pensando que eu sô loki, bicho?" (arnaldo batista); "é preciso, sempre, desafinar o coro dos contentes! (torquato neto).
O essencial: sua ironia não cai nunca no mero sarcasmo meio gracejado. Sua ironia é como tem de ser em horas grandes de grandes mensagens: ironia carregada de amargura. A amargura que é o preço lascado que a gente paga por estar atento!...
que tal pôr em inglês e mandar o texto pro homem lá do norte:
e acrescentar à tua peroração: por que é que você não usou "black man" nem um vez, mr. barack whiteman obama?
valeu, bruno!
abração (com tabela pra lu!)
do
mario
PS. vô reler teus outros escritos.
M.
Fodaço. "Escrever nas linhas invisíveis" foi a melhor metáfora para descrever o trabalho do "nosso" presidente.
Viva os Husseins!!
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