segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

e no entanto não entendo como entrei por aquela porta sem me perguntar, nem que fosse por um instante, se encontraria o que estava esperando. a luz apagada, o ambiente pesado, apertado, sombrio, frio não ajudou em nada na leve doidera que se instalava nos meus pensamentos. apertava os olhos e mesmo assim não distinguia uma única sombra. das hipóteses mais aceitáveis, comedidas, lógicas, rapidamente comecei a me apertar com aqueles sustos que o pensamento turvo dá. logo estava confusa. porque ainda estava sozinha? mais de um minuto acho. no escuro. já nem queria mais entender o que me esperava, aterrorizada com a idéia de que talvez já não pudesse mais sair. já não sabia ao certo se deveria ter entrado e procurado o interruptor. porque não procurei o interruptor, me perguntei. culpa. a culpa era muito grande. eu não devia nem ter pensado em estar ali, daquele jeito. pelo telefone. tudo pelo telefone. por escrito. minha cabeça começou a doer nessa hora. quase dois minutos, um minuto e meio talvez. porque me deixam no escuro, doíam meus olhos, estava assustada. tinha que ir embora. quase me movi. percebi que estava curva, em ângulo com o chão, os pés juntos. a ponta do meu sapato encostava em algo. minhas costas tocaram, nesses dois minutos, constantemente algo incômodo, uma quina, algo assim, que se destacava do que parecia ser um armário. me afastei sempre como que de algo quente. eu nem entendia onde estava. nem de pé, direito, eu estava. quase me movi e ouvi algo. não respirei, mas não de medo, de atenção. não se pode ouvir direito com o ar correndo pelos canais tão próximos ao ouvido. também não pensei naquela hora. atenção. quase uns 5 segundos ou mais. ou mais. minha cabeça pulsou forte. doeu de verdade. me movi. foi quando senti um pânico perverso tomando conta de mim. quis correr. e não consegui. quase chorei. mas não tive coragem. não conseguia me conformar com o fato de não conseguir entender aquela situação. minha cabeça não doeu mais. 2 minutos, agora com certeza. ou mais. ou mais. poderia estar lá há meia hora, fosse a intensidade a medida. tateei. achei a maçaneta. quando toquei nela, senti uma descarga fortíssima de adrenalina. no corpo inteiro. meu sangue pulsou a pressão baixou. fiquei muito puta comigo. vai embora caralho. foda-se! abri a porta e saí andando forte. suando. suando. que caralho que eu fui fazer lá. puta que o pariu. que que eu fui fazer lá?

4 comentários:

LUCIANA VASQUES BARBOSA disse...

o que acho mais interessante sobre esse texto é essa descrição tão intensa sobre um instante, diria até que é fotográfico... poucas cores, preto e branco ou preto e vermelho, cabeça baixa, não se vê a expressão dos olhos, mãos rígidas, uma contra a parede, outra contra o peito ou pescoço, ô sensação de sufocamento... representar a falta de compreensão pode ser tão óbvio e clichê, mas seu texto expande a percepção e me traz para o agora.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

GCV! Tocante... se começou a ler vc segue alucinadamente até o final... engraçado que me senti aflita... até pelo fato que eu tenho uma nóia com o escuro... mas quer saber... no final desse texto me fez ler em voz alta, grudada na tela do lap...o último parágrafo "...PUTA QUE PARIO O QUE EU ESTAVA FAZENLO LÁ!"
... vamos para a terça-feira!

Marco Camunha disse...

Quente, paredes escuras e secas.
Seco, nau em 1 cm cubico de quarto;
Na claustrofobia, o deserto. Dissecante e áspero na asfixia.
Dei-me em mim,
lia bruno